Será que é sorte?

by , 12/03/2019 //

Oi, pessu! Recentemente, a Dé postou no seu LinkedIn pessoal um artigo sobre meritocracia e privilégios. Achamos o conteúdo muito importante para a análise de nossas histórias e a forma na qual essas questões são refletidas em nossas carreiras. Por isso, decidimos compartilhar ele para os leitores do Tudo Orna.

Veja só:

Uma reflexão sobre meritocracia e privilégios

Quando você olha para alguém que “chegou lá” (exatamente onde você desejaria estar), o que você pensa?

Se você respondeu que a sorte é responsável por isso, devo concordar – em partes. Afinal, não existe (somente) o fator “esforço individual” para se chegar ao reconhecimento.

Para ilustrar o que quero dizer: imagine um homem, branco, heterossexual, que teve acesso à educação, saúde de qualidade e que cresceu em ambientes favoráveis. Ele se tornou um grande executivo. Esse cara pode ser considerado como alguém que teve mais “sorte” – que também pode ser lida como “privilégio”.

Agora outro exemplo, da minha vida. As famílias dos meus pais eram simples, meu avô materno era garçom. Ainda que não tenha nascido em uma família abastada, meus pais trabalharam duro para oferecer a mim e as minhas duas irmãs, condições melhores. Estudei por um período da minha infância em escola pública e outro período no ensino particular. Nunca passei fome e sempre tive suporte e apoio dos meus pais, o que também é um baita privilégio.

Durante a fase adulta, percebi que ser mulher é uma desvantagem, especialmente no mercado de trabalho. Mulheres têm menos voz também no universo empreendedor e por diversas vezes tive que gritar mais alto.

Segundo um estudo divulgado pela Forbes, apenas 3% dos cargos de CEO são ocupados por mulheres no Brasil*. Sem contar que, assim como prova essa matéria da ÉPOCA NEGÓCIOS, somente 18% das empresas brasileiras têm mulheres como presidente*. E eu, orgulhosa e privilegiadamente faço parte dessa estatística.

E a meritocracia?

Um assunto que pode ser considerado espinhoso para muitos. Acredito que a meritocracia – no que se relaciona à sociedade – existe apenas quando as oportunidades são as mesmas. Se as pessoas não começam no mesmo ponto de partida, não podemos falar que seus feitos estão ligados 100% a meritocracia. Essa é uma verdade que muitos não conseguem entender, especialmente no Brasil.

Quase nunca alguém terá exatamente as mesmas condições (complexas) sociais de uma outra pessoa.

É preciso considerar questões de gênero, classe, raça, núcleo familiar, educação, saúde física e mental, e até mesmo se o país em que se nasce é desenvolvido ou não. Os recursos públicos e, principalmente, os privados, não são os mesmos para todos.

São vários recortes que podem resultar no que chamo de vantagens ou desvantagens. Dessa forma, não é coerente descartar que o sistema pode ser um obstáculo para que alguém se torne “vitorioso”, como é a realidade da maioria dos brasileiros.

privilégios meritocracia

Os privilégios nascem com a gente e não podemos mudá-los. Mas podemos escolher como nos portamos diante deles e o que fazer com esse privilégio que temos.

Se considerarmos que os privilégios existem apenas para alguns, você logo pode identificar que pertence a algum grupo vulnerável.

Grupo vulnerável: pessoas que, por diversas razões, não têm como se prevenir, resistir ou contornar potenciais impactos físicos ou morais. Por consequência, estão mais expostos à situações de risco. Alguns exemplos de vulneráveis são as mulheres, crianças e adolescentes, idosos, moradores de rua, pessoas com deficiência ou sofrimento mental e comunidade LGBT.

E o que isso quer dizer na prática? Que você, vulnerável, terá que se esforçar mais para chegar no mesmo ponto de partida de alguém que não faz parte desse grupo. Você precisa entender que o esforço gera sim resultado, mas você terá que se esforçar mais.

Os privilégios existem e reconhecer isso nada mais é do que reconhecer que a nossa sociedade privilegia mais uns que outros. Mas eu acredito que, com o reconhecimento dos privilégios que temos ou não, também podemos trabalhar o nosso mindset (forma de pensar).

Vou explicar melhor. Se por um lado identificamos que fazemos parte de um grupo vulnerável, podemos entender que a jornada será muito mais difícil. Logo, as chances serão menores. Começamos a nos questionar: faz sentido tentar? Afinal, dificilmente irei conseguir, certo?

A única certeza sobre essa forma de pensar é que ela é limitante. O mindset limitante te trava, te paralisate deixa sempre para trás.

Um exemplo que reforça esse pensamento confinante, é um dos temas mais estudados no campo da psicologia social: a teoria chamada ameaça do estereótipo*. Ela entende que a postura conformista pode acontecer a partir do momento em que uma pessoa aceita que aquela é sua realidade e que o processo para mudá-la é duro demais. Ou seja, que diante de um panorama em que a ameaça do estereótipo existe, ele reduz o desempenho de indivíduos, que se travam diante dessa perspectiva de fracasso.

Essa é uma grande armadilha sobre essa questão de esforços individuais.

Sim, vários fatores externos influenciam em sua chegada ao “sucesso”.

Porém, os privilégios dos outros e padrões sociais estabelecidos não podem destruir sua capacidade de sonhar e acreditar.

Por outro lado, se você se identificar como parte de um grupo vulnerável e ter plena consciência disso, pode encontrar forças para se superar. Você pode buscar apoio em pessoas que encontraram as mesmas barreiras e venceram. Ter resiliência e eliminar, pouco a pouco, suas inseguranças.

Você conhece a expressão “fake it until you make it”?

Se você ainda deixa os pensamentos limitantes assumirem o controle e acha que nunca chegará lá, “finja até conseguir”. Ou seja: tente, por mais doloroso que isso possa ser. Se você fingir várias vezes, vai chegar um momento em que o seu mindset estará reprogramado para o crescimento, e seu objetivo, aquele que parecia tão longe, começará a se tornar cada vez mais real.

Nenhuma pessoa deve se achar culpada por tudo, mas também não deve culpar tudo.

Lembre-se sempre que os fatores externos são incontroláveis mas os fatores internos são controláveis.

Fuja do conformismo como propõe o filósofo Mario Sergio Cortella, no seu livro “A sorte segue a coragem”

Já parou para pensar que existem pessoas privilegiadas que, por conta do seu mindset limitante, não chegaram lá?

Eu e minhas irmãs, como mulheres empreendedoras, fazemos do nosso privilégio de sermos reconhecidas, um canal para dar espaço e emancipar outras mulheres.

Devemos trabalhar duro e não esperar por uma oportunidade e não se conformar com fatores externos. Fazer o que for preciso para melhorar nossas chances de chegarmos onde queremos. E quando alcançarmos a emancipação, é importante reconhecermos essas lutas e lutar para ajudar para que outros grupos consigam o mesmo. Sentimos que é a nossa responsabilidade, nossa razão como mulheres empreendedoras.

Claramente o sucesso não depende só de você. É justamente por isso você não pode desistir. Talvez você esteja pensando que não é justo. E não é mesmo. Mas é possível levantarmos uns aos outros. Essa é uma forma de contribuir para que haja uma mudança.

Afinal, nem o sucesso nem o fracasso é garantido, mesmo com sorte.